Não preciso ser fã de Flávio Bolsonaro para reconhecer um ponto válido. E ele não está, neste momento, no auge da sua credibilidade política. Mas a proposta veiculada pela imprensa nesta semana — suspender por um ano a entrada em vigor da reforma tributária — toca uma ferida que o mercado finge não ver.
A coordenação da pré-campanha confirmou à Folha de S.Paulo que prepara uma PEC para sustar a vigência do novo sistema. O argumento oficial é técnico: a alíquota-padrão do IVA pode alcançar 28%, entre as mais altas do mundo, distorcida por um cardápio de regimes diferenciados que se acumularam ao longo da regulamentação. Eliminadas as exceções, a aposta é levar a alíquota para perto de 19%. Esse é o argumento eleitoral. O argumento sistêmico é outro.
A reforma começou a vigorar em 2026 com um teste operacional de CBS e IBS. Teste. Em escala nacional. Sobre milhões de empresas que precisam refazer ERP, parametrização fiscal, cadeia de fornecedores e modelagem de preços ao mesmo tempo.
O problema não é a reforma. O problema é o ritmo. Esse é o problema que ninguém quer nomear.
Os contribuintes não estão conscientizados. Os contribuintes não estão aparelhados. Os contribuintes não foram treinados para conviver com split payment, crédito financeiro, recolhimento no destino e IVA dual em uma única transição. E a contraparte estatal? O Comitê Gestor do IBS ainda está construindo a própria infraestrutura. A regulamentação infralegal continua sendo publicada em camadas. Pareceres normativos saem em ritmo de quem ainda está descobrindo o próprio sistema.
Você compraria um avião e exigiria que ele decolasse com o manual sendo escrito durante o voo? É exatamente isso que está sendo feito com a maior reengenharia fiscal da história do país.
E é aqui que a discussão precisa subir um andar. Pausar não é recuar. Pausar é proteger o ativo. Pausar é dar ao Comitê Gestor, à Receita, aos estados, aos municípios e ao setor produtivo o tempo mínimo para implementar sem judicialização em massa. A própria pré-campanha já reconhece o que tributaristas de mercado vêm dizendo há meses: a entrada em vigor plena vai gerar uma onda de contencioso que o Judiciário não tem capacidade de absorver.
Não confunda o mensageiro com a mensagem. A tese é boa porque os números são bons. 28% de IVA não é simplificação. Implementação atropelada não é modernização. Cronograma político não é cronograma técnico.
Quem comanda companhias acima de R$ 200 milhões de faturamento já entendeu o tamanho do risco. O restante vai entender no primeiro trimestre de vigência plena. Na primeira autuação. No primeiro crédito não aproveitado. No primeiro fluxo de caixa estrangulado pelo split payment.
A pergunta não é se haverá um custo de transição. A pergunta é quem vai pagar. E a resposta, como sempre, é o contribuinte que confiou no cronograma
É urgente agir agora para evitar prejuízos e garantir conformidade.