A Reforma Tributária avança, mas ainda está longe de ser considerada completa. Após a aprovação da Emenda Constitucional 132/2023 e da Lei Complementar 214/2025, vários pontos decisivos permanecem sem definição e eles podem comprometer a segurança jurídica, a implementação dos novos tributos e até a competitividade das empresas.
1. Competência Judicial do IBS: O Maior Calcanhar da Reforma
Uma das dúvidas mais críticas é: quem vai julgar os litígios do novo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS)?
Essa é hoje a maior fragilidade da reforma.
O motivo é simples: o IBS é um tributo único, multicompetente, sem paralelo na estrutura atual do contencioso tributário.
Sem uma Lei Complementar específica para definir a competência judicial, o risco é criar um ambiente de insegurança jurídica, com disputas paralisadas ou encaminhadas para instâncias inadequadas.
Além disso, ainda faltam normas claras sobre:
- Fundo de compensação de créditos
- Regras finais de transição
- Padronização das obrigações acessórias
- Integração dos sistemas tecnológicos entre União, estados e municípios
Sem essas definições, o contribuinte não saberá onde litigar, como se defender ou como escriturar suas operações.
2. Emissão de Notas Fiscais: Sistema Pronto, Mas Sem Confirmação Oficial
Outro ponto sensível é o sistema de emissão de notas fiscais, que será a base de operação do IBS e da CBS.
O Serpro afirma que o sistema está tecnicamente concluído. No entanto, a Receita Federal ainda não confirmou oficialmente sua prontidão.
A partir de janeiro de 2026, todas as empresas deverão emitir NF com destaque para:
- CBS: 0,9% (alíquota-teste)
- IBS: 0,1% (alíquota-teste)
Não haverá cobrança efetiva, pois os valores serão compensados com PIS e Cofins.
Esse é o único sistema que não pode atrasar, porque todas as obrigações da reforma dependem dele.
3. Split Payment: Falta de Regras para Operações Aduaneiras
O modelo de split payment também apresenta lacunas importantes.
Operações aduaneiras exigem tratamento diferenciado, já que envolvem:
- Alíquotas específicas
- Regimes especiais
- Entradas e saídas com obrigações distintas
O sistema precisará ser inteligente e parametrizado para:
- Reconhecer automaticamente cenários de exportação
- Tratar corretamente operações da Zona Franca de Manaus
- Evitar distorções de crédito e acúmulos indevidos
O PLP 108 já prevê tratamentos diferenciados para a ZFM, mas ainda faltam definições práticas do sistema.
4. Comitê Gestor do IBS e da CBS: Eleição Atrasada
A implantação plena dos novos tributos depende do Comitê Gestor, responsável por:
- Operacionalizar a arrecadação
- Parametrizar sistemas
- Coordenar estados e municípios
Porém, a eleição dos representantes ainda está pendente.
Faltam as indicações dos municípios — 14 pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM) e 13 pela Frente Nacional de Prefeitos (FNP).
Essas indicações só podem ocorrer após a sanção do PLP, o que deve acontecer até 31 de dezembro, segundo especialistas.
Ou seja: o comitê que deveria coordenar toda a implementação ainda não está formalmente constituído.
A Reforma Avança, Mas Ainda Não Está Pronta
Embora a estrutura legal da reforma tributária esteja avançada, vários pilares essenciais ainda dependem de regulamentação.
A falta de definição sobre o contencioso do IBS, os ajustes na emissão de notas fiscais, a parametrização do split payment e a formação do Comitê Gestor mostram que o sistema ainda precisa de ajustes profundos antes de entrar em funcionamento.
Para as empresas, acompanhar essas pendências é crucial para:
- Evitar riscos fiscais
- Planejar adaptações de sistemas
- Ajustar processos internos
- Antecipar impactos no fluxo operacional e financeiro
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